O Prefeito Daqui

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“Ó o tamanho do tumor. Ó: a tela inteira”, equilibrando-se no corredor do metrô com as pernas afastadas, o homem — camisa de botão roxa, calça cáqui, cabelo só ao lado das orelhas — estendeu o celular a uma mulher sentada. Então pegou a menina de três anos, loirinha, serelepe, que estava agarrada às suas pernas, a virou de costas e apontou: “Aqui o curativo”, aí apertando a bunda dela pra mostrar que tinha curativo mesmo debaixo da calça, e completando: “Uma injeção mal dada”. Ele fez a baldeação comigo da linha verde à linha azul; no metrô anterior estava contando a um sujeito que passara um produto químico na cabeça que lhe dera câncer (?), “caiu cabelo, caiu sobrancelha, caiu tudo” (quanto ao rapaz, disse, não havia perigo de ficar careca: não tinha entradas). Também explicou que não era daqui, era do interior de Minas, me esqueço a cidade agora; estava deslocado, afirmou, estava “perdido como pinto na granja” (não sei bem se foi “granja” o termo, mas era quase isso, um lugar onde um pinto provavelmente não estaria tão perdido). Depois que viemos ao outro trem ele prosseguiu contrariando a etiqueta do tédio da urbe e interagindo com desconhecidos. Mas no caso daquela mulher sentada havia um motivo especial para isso. Ela lhe fizera “o primeiro gesto de carinho que teve em São Paulo”. Isto é, levantou para que os seus filhos (mais dois, além daquela, sendo que um é “gêmeo com ela”) sentassem, além de dar uma folha de lenço umedecido para que um deles limpasse a mão. “O primeiro gesto de carinho aqui em São Paulo, em dois meses. Parabéns”. Parece que vem para a capital com alguma frequência; traz os filhos à quimioterapia. “O prefeito daqui”, se exaltou, “cortou a ambulância que trazia a gente da nossa cidade pra cá. Muito caro”. Era a segunda vez que eu ouvia falar de João Doria — o anti-Lula, segundo manchete da “Isto É” — hoje; a primeira foi a notícia da sua mais recente performance, estava erguendo bandeiras em alguma avenida para inspirar civilidade. “O prefeito daqui cortou a ambulância, não só da gente como de catorze famílias”. O homem descreveu toda a complicação que têm de fazer para virem ao médico agora, não sou capaz de reproduzir. “Sabe quando essas crianças vão comer?”, disse, a menina agarrada à sua perna, jogando a cabeça para trás, brincante, ele mostra o outro com a cabeça: “Ele está comendo agora porque o moço deu uma bolacha. Eles só vão comer quando a gente chegar no Tietê pra voltar pra casa. Às três e meia da manhã!”. Vai levando a filha a uma cadeira enquanto eu desço na Sé. “Sabe quando essa criança tinha de ter tomado banho? Faz quatro horas!”.

oh no

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Seis tirinhas de Alex Norris, da sua série webcomicname, sobre criação:

Chupa a Bala Halls, Pega a Vassoura e Voa

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“Ela levantou a mão e falou ‘Eu sou Maria’? pra vocês saberem? Pra vocês darem nome pra um objeto?”, diz a menina de coque na cabeça ao menino de camisa de botão listrada lilás para dentro da calça. Vê-se que ela narrava uma pendenga entre evangélicos e católicos. O rapaz comenta concordando: “É que se aprende isso de pequeno e continuam com essas superstições”. Talvez ele não tenha dito bem com esses termos. Enfim. Depois desse argumento que não caberia menos a Ateia, ela conta como foi importunada por não comer carne: “Eu falei: tia, você respeita a minha religião e eu respeito a sua. Mas a senhora quer discutir? Vamos pegar a Bíblia e discutir com a Bíblia aberta”. A tia teria retrucado: ah, mas eu tenho tantas décadas de evangelismo. “Então vamos discutir com a Bíblia aberta? Já que a senhora leu a Bíblia tantas vezes, né?” Disse que foi lá e abriu em tal parte e estava escrito que Jesus mandou ninguém comer nada que tivesse sangue. “Sabe o que é o porco? O porco é um lixeiro. A senhora tá comendo um lixeiro. Mesma coisa o camarão. A pessoa tá comendo os dejetos de todo mundo na praia”. Segundo a moça de coque isso tudo foi um arraso, a tia ficou muito atordoada.

Logo a conversa transita para uma discussão teológica intramuros evangélicos. Ela constrói outro personagem que opõe a si: “’Ah, mas vocês não acreditam no Espírito Santo’. Aí eu começo a rir. Falo: má é cada uma! Como eu não acredito no Espírito Santo? Só que é que nem eu falo: quem disse que Deus leva em consideração que você só tem o Espírito Santo se você sai pulando, chupa a bala Halls, pega a vassoura e voa? Quem garante isso? Você só tem algo se for assim, se você ficar gritando e pulando igual um doido, todo mundo com medo de você, sem saber o que é aquilo”. O rapaz nota que certo livro da Bíblia não diz que TODAS as pessoas estavam pulando em certa ocasião que, imagino, sustente essa interpretação negada pela menina. Ela acrescenta que em outro ou no mesmo livro bíblico, pelo que pude entender, fulano até gritava ou pulava, mas “falava de forma que tooodos entendiam. Então eram línguas locais. Era língua daqui da Terra, não era língua do beléleu. Não é um negócio de chupa a bala Halls, pega a vassoura e voa”.

Os desentendimento com outras designações iam além do falar em línguas ou do receber o êxtase divino de formas performáticas demais. Outra questão é que haveria uns crentes muito peguentos. “Às vezes tem um pessoal amigo meu que diz: ‘Posso orar por você?’ Eu digo: ora, mas não põe a mão. Não põe a mão. Não põe. Pode orar, se quiser segurar na minha mão, beleza, mas por a mão na minha cabeça não”. O rapaz acrescenta: “Por a mão na cabeça só o meu cabelereiro ou o pastor”. Ela retruca, reeditando Augusto dos Anjos sem saber talvez, e com menos talento: “E olhe lá, viu! Que eu sou bem assustada. Eu sou meio assustada, porque sabe aquela história, né? A mão que te abençoa é a mesma que te amaldiçoa. Mão na tua cabeça, fio, é algo muuuito sério. É muito sério isso”. O rapaz se repete: “Eu sei. Por isso que eu só tenho essa concepção, ou meu pastor ou meu barbeiro. Só”. Ela continua novamente quase como senão tivesse sido interrompida: “O cara tem de passar meeega credibilidade pra você”.

Ela volta ao que parece ser o cerne da sua ética: aferrar-se à leitura da Bíblia. “Com o tempo, se você for vendo a Bíblia, você vai começar a ver. Que nem, o pessoal fala pra mim assim: ‘Ah, mas você não bebe? Pode beber, Jesus Cristo fez vinho’. Mas fala o teor alcoólico?”. Ela pergunta retoricamente e responde de imediato e em um tom mais sério: “Não. A gente que inventou de tacar álcool dentro das coisas”. O rapaz sempre fático: “A fermentação já tem o álcool natureba, né. Hoje em dia com os esquemas de produção, escala…”. Eles apontaram problemas diferentes, na verdade: ela culpa uma má interpretação do que seria claríssimo no texto bíblico. Ele meio que culpa o capitalismo.

A garota prossegue: “Eu bebo cerveja sem álcool. Porque eu tenho um problema renal e bebo sem álcool. Só que eu não posso fazer disso um vício, porque a gente deve fugir da Aparência do Mal. Que que adianta, o cara vai falar bem assim pra mim, tá com cheiro de cerveja de qualquer forma”. Seria deus ou Jesus esse “cara”? O exemplo que dá lembra a parábola das lanternas. Ainda ela: “Tudo a gente tem que fazer e tem que ter cuidado. Aquela história: eu faço todas as coisas, porém nem tudo me convém”. Então chegou a estação, e eles se foram.

Todos são Interessantes

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Em 1984, no New York Times, uma carta ao editor comenta o gênero das biografias literárias, que havia sido criticado por algum colaborador do jornal. O correspondente define o valor irredutível de uma obra do tipo:

Everybody is interesting. Every person has a key, a source. Everybody has been moved by parents, abused by friends, dismayed by fears. To say that nothing has happened to this man is to view him from such a great distance and immense indifference that every effort should be made to abandon the project.

“Todos são interessantes. Todas as pessoas tem uma chave, uma fonte. Todos foram afetados pelos pais, abusados pelos amigos, desanimados pelos medos. Dizer que nada aconteceu a este homem é vê-lo de uma distância e com uma indiferença tamanhas que qualquer esforço deveria ser feito para abandonar o projeto.” Se o crítico nada vê em uma vida, portanto, a falha está no crítico. As vidas são ricas.

***

Há nesse mesmo texto uma definição interessante do que é ser criativo:

Most people are not creative, in the sense that they haven’t the drive, confidence or talent to let creativity become a dominant factor in their lives.

“A maioria das pessoas não é criativa, no sentido de que elas não tem o impulso, a confiança ou o talento de deixar a criatividade se tornar um fator dominante nas suas vidas.” A criatividade é aí um deixar fluir. Algumas pessoas deixam, outras não. É quase psicanalítico: não conter certas forças dentro de si.

Cristã Verdadeira

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“Só porque tem uns trocadinhos, pensa que é alguma coisa. Só porque tem umas moedas, pensa que é melhor que a gente. Mandando eu me lascar. Mas eu não me lasco não, que meu Deus me cuida.” A senhorinha vem manquejando na direção do ponto de ônibus, apoiando-se em uma bengala de quatro pontas, uma das pernas enfaixada. Usa uma camiseta amarela desbotada e saia até os tornozelos; carrega duas sacolas, pára sob o abrigo e se põe a procurar algo em uma delas. “Só porque tem uns trocadinhos no Bradesco pensa que é alguma coisa.” Puxa um resma de folhetos retangulares com citações da Bíblia. “Quer a palavra do Senhor?”, ela me diz, eu aceito por educação; ela passa ao próximo expectante, uma moça sentada no banco de madeira. “Quando o diabo manda dos seus é difícil, né? Ela mandou eu me lascar. Só porque tem uns trocadinhos, acha que é melhor que a gente.” Entrega o folheto e segue a um idoso também na fila. “Quer a palavra do Senhor?” Devagar, continua falando, “eu trabalhei 35 anos. Agora a perna inflamou”, purgando e pregando, “todo mundo é igual, a Dilma é igual, a Dilma teve na cadeia, teve na presidência.” Há nessa frase uma profunda compreensão ética: a igualdade é que nada está garantido e que todos somos frágeis. Cristã verdadeira.

O Processo Criativo de William Faulkner

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Trechos da entrevista do escritor americano William Faulkner, autor de O Som e a Fúria, para Jean Stein, da Paris Review, em 1956. A tradução é minha:

Do que é feito um escritor?

Noventa e nove por cento talento… noventa e nove por cento disciplina… noventa e nove por cento trabalho. Ele nunca deve estar satisfeito com o que faz. Não é nunca tão bom quanto podia ser. Sempre sonhe e mire mais alto do que você pode fazer. Não tente só ser melhor do que os seus contemporâneos ou predecessores. Tente ser melhor que você mesmo. Um artista é uma criatura movida por demônios. Ele não sabe porque eles o escolheram e em geral está muito ocupado para especular sobre isso. Ele é completamente amoral: vai assaltar, emprestar, implorar ou furtar de qualquer um para completar o seu trabalho.

Ninety-nine percent talent … ninety-nine percent discipline … ninety-nine percent work. He must never be satisfied with what he does. It never is as good as it can be done. Always dream and shoot higher than you know you can do. Don’t bother just to be better than your contemporaries or predecessors. Try to be better than yourself. An artist is a creature driven by demons. He don’t know why they choose him and he’s usually too busy to wonder why. He is completely amoral in that he will rob, borrow, beg, or steal from anybody and everybody to get the work done.

Responsabilidade do Artista

O escritor só é responsável pela sua arte. Ele será completamente cruel se é dos bons. Ele tem um sonho. Que o angustia tanto que ele tem que se livrar dele. Ele não terá paz enquanto não o fizer. Põe tudo em jogo: honra, orgulho, decência, segurança, felicidade, tudo, para completar o livro.

The writer’s only responsibility is to his art. He will be completely ruthless if he is a good one. He has a dream. It anguishes him so much he must get rid of it. He has no peace until then. Everything goes by the board: honor, pride, decency, security, happiness, all, to get the book written.

Julgar-se a Si Próprio

O critério a ser atingido é definido por mim, e é o sentimento que me dá a leitura de A Tentação de Santo Antônio, ou a do Velho Testamento. Eles fazem com que eu me sinta bem. Assim como observar um pássaro faz com que eu me sinta bem. (…)

Mine is the standard which has to be met, which is when the work makes me feel the way I do when I read La Tentation de Saint Antoine , or the Old Testament. They make me feel good. So does watching a bird make me feel good. (…)

A qualidade que um artista deve ter é objetividade em julgar o seu próprio trabalho, mais a honestidade e a coragem de não se iludir a respeito dele.

The quality an artist must have is objectivity in judging his work, plus the honesty and courage not to kid himself about it.

Não tem Atalho

Que o escritor se torne cirurgião ou pedreiro se ele está interessado em técnica. Não tem um jeito mecânico de escrever, não tem atalho. O jovem escritor seria tolo em tentar seguir uma teoria. Ensine a si mesmo por meio dos seus erros; as pessoas só aprendem através do erro. O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos. Ele tem uma vaidade suprema. Não importa o quanto admire o velho escritor, ele quer derrotá-lo.

Let the writer take up surgery or bricklaying if he is interested in technique. There is no mechanical way to get the writing done, no shortcut. The young writer would be a fool to follow a theory. Teach yourself by your own mistakes; people learn only by error. The good artist believes that nobody is good enough to give him advice. He has supreme vanity. No matter how much he admires the old writer, he wants to beat him.

Necessidades Fundamentais

Um escritor precisa de três coisas, experiência, observação e imaginação — das quais duas, até uma só — podem suprir a falta das outras.

A writer needs three things, experience, observation, and imagination—any two of which, at times any one of which—can supply the lack of the others.

O Escritor e a Crítica

O artista não tem tempo de ouvir os críticos. Aqueles que querem ser escritores leem resenhas, aqueles que querem escrever não tem tempo de ler resenhas. (…) O artista está acima do crítico, porque o artista escreve algo que moverá o crítico. O crítico escreve algo que moverá a todos, menos o artista.

The artist doesn’t have time to listen to the critics. The ones who want to be writers read the reviews, the ones who want to write don’t have the time to read reviews. (…) The artist is a cut above the critic, for the artist is writing something which will move the critic. The critic is writing something which will move everybody but the artist.

O Objetivo da Arte

O objetivo de todo artista é captar o movimento, que é a vida, por meios artificiais, e manter isso tão fixado que cem anos depois, quando um estranho olhar para aquilo, a coisa se moverá novamente, na medida em que é vida. Já que o homem é mortal, a única imortalidade possível para ele é deixar algo para trás que é imortal e que se moverá para sempre.

The aim of every artist is to arrest motion, which is life, by artificial means and hold it fixed so that a hundred years later, when a stranger looks at it, it moves again since it is life. Since man is mortal, the only immortality possible for him is to leave something behind him that is immortal since it will always move.

Rabeta Monstro

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[Publicado no Facebook em 26 de outubro de 2016]

Homem de meia idade no metrô, pele acobreada, barriga saliente debaixo da camisa social, uns chumaços grisalhos por topete. Olha para uma mulher de blusinha de alça sentada um metro a frente e comenta ao seu colega — um descendente de oriental também de meia idade, também fantasiado de escritório: “Peitinhos brancos assim, né”. Fala só uns poucos tons mais baixo do que se verá que é o seu normal. Pequena pausa, muda de assunto: “Falei para a Marta que ela vai ficar grávida e tem que tomar cuidado com as estrias e a celulite. Que ela tem uma bunda muito grande e fica grávida estoura. Ela ficou desesperada”. O colega anota: “Vai ser uma grávida chata. Já é chata agora. Imagina grávida”. Pequena pausa, o barrigudo passa a contar umas aventuras sexuais suas: “Eu falo pra ela: manda nudes. Ela manda. Só de calcinha, sutiã. ‘Apaga?’ Apago. Depois de novo. Geralmente domingo assim. ‘Vou tomar banho’, aí manda”. O outro pergunta sobre uma outra moça com quem estava envolvido. Confirma que já não está mais: “Tá namorando agora”. Pequena pausa. “E também ela mandava mal demais”. “Ficava esfregando, você falou.” “É, subia em cima, ficava esfregando.” Ele faz curtos movimentos para trás e para frente. Acrescenta: “Você tava sentado no sofá, ela vinha em cima, aquele peso todo. Ficava de quatro, não fazia aquela curva”, faz a curva no ar com a palma da mão, “sabe? Aquela empinada. Tem vergonha”. Pequena pausa. “Agora eu tô mais a casada. A do policial. Tem uma rabeta monstro. Quadril monstro. Ela fala: ‘Vai logo’. Vai logo nada. Fico uma hora. Uma hora e dez. Foda-se”. Lá fora, passa uma mulher, ele aponta pela janela: “Empresária”. O colega não dá atenção. Abaixa um pouco a cabeça para vê-la ao longe: “De azul”. O colega ainda não lhe dá atenção.

Crônica é Buscar a Crônica

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Uma definição de crônica, do texto “O Homem de Kersting“, de José Castello:

Aqui se repete comigo a descoberta, um tanto assustadora, um tanto fraudulenta, que sempre surpreende os cronistas. É buscando uma crônica — é em sua procura, e não em seu encontro — que uma crônica se faz. A crônica não é algo que já está pronto e que o escritor deve, num grande esforço, recuperar. A crônica é esse novelo que se desenrola: ela é esse desenrolar. Só assim, enfim, o presente nos chega. Só assim (…) nossa própria imagem retorna. Só assim, num relance precário, chegamos a ser.

Invasor/Libertador

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A dualidade de certo ideograma chinês que diria ao mesmo tempo crise e oportunidade (uma interpretação do signo que se popularizou no Ocidente e, me avisa a Wikipedia, é incorreta) transparece em A Cidade Mágica, de Edith Nesbit:

— Muitos invasores?! — a resposta veio quase com desdém. — É exatamente esse o caso: nunca houve outro até agora. Você é o primeiro. Por anos e anos e anos tem havido essa guarda aqui, porque, quando a cidade foi construída, os astrólogos previram que algum dia viria um invasor que cometeria inenarráveis maldades. De modo que é o nosso privilégio, nós, os guardas polistopolitanos, vigiar o único caminho por onde um invasor poderia vir. (…)

— Não seria o caso — disse Philip — de vocês cortarem a ponta da escada; quero dizer, a ponta do lado de vocês? Assim ninguém subiria.

— Isso não poderia de forma alguma ser feito — disse o capitão — porque, veja, há outra profecia. O grande libertador virá por esse caminho.

A única e mesma fonte trará herói ou vilão, destruição ou libertação. Apenas quando o visitante chegar, com tudo a perder ou tudo a ganhar, com a catástrofe ou a graça já em movimento, é que poderão agir.