experimento surrealista #1 (escrita automática)

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João nunca soube o que Luciana iria lhe dizer naquela tarde de domingo. O voo dos tubarões na tarde de sábado já havia destruído qualquer possibilidade de percorrer a cidade com segurança, então a garota não pode vir ao seu encontro. Além disso, as carpas comedoras de eletricidade haviam devorado tanto os cabos de energia quanto os fios da companhia telefônica. A internet, assim, tinha caído sem chance de volta. Jamais alguma coisa seria como tinha sido antes, João sabia. Enquanto observava os bonobos nadando no seu aquário particular, e os pica-paus soltando flamas de açúcar na cabeça dos pardais, ele especulava se agora permaneceria para sempre solitário. De repente, teve uma ideia: faria uma Luciana para si, já que a outra estava irremediavelmente perdida nas distâncias. Pegou um pouco de café, um pouco de arroz, um pouco de ranho, um pouco de óleo, um pouco de sal, um pouco de tomate, um pouco de uvas verdes, macerou tudo com os pés, depois deixou marinar em um balde de azeite com algumas poucas chaves de fenda para dar gosto. No terceiro dia, a segunda Luciana emergiu do balde como Afrodite do mar. Era idêntica à outra, nem mais nem menos bonita (para aperfeiçoamentos, teria sido necessária, é claro, a inclusão de cominho, ketchup e sanduíches do Mcdonald’s). Dessa forma, se abria para João a possibilidade e a precisão de se casar com a nova Luciana, chamemo-la de Luciana2. Arrancou seu carpete, cavou alguns metros com uma pá que sempre deixava ao lado do rack, e de lá retirou um padre que guardava para situações do tipo. O homem de Deus limpou a terra da batina e se pôs a realizar o ritual. Fazia-o de um jeito estranho, com tremeliques nas mãos e rápidos espasmos na perna esquerda. Em certo momento, coçou atrás da orelha direita e ela caiu (não se incomodou tanto; simplesmente abaixou-se, pegou-a e passou a mastigá-la; continuou dizendo as palavras sagradas enquanto mascava a cartilagem). Jeremias era o nome do padre, se é que isso importa. Pois bem, casados, João e Luciana2 tinham toda uma vida de felicidade para percorrer, o que seria praticável não fosse, como referido, a infelicidade do mundo ter acabado, ou ter iniciado seu procedimento de abortagem, há alguns dias. Os demônios olhavam da janela com tristeza por assistirem a um amor tão bonito não ter um final feliz.

O Prefeito Daqui

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“Ó o tamanho do tumor. Ó: a tela inteira”, equilibrando-se no corredor do metrô com as pernas afastadas, o homem — camisa de botão roxa, calça cáqui, cabelo só ao lado das orelhas — estendeu o celular a uma mulher sentada. Então pegou a menina de três anos, loirinha, serelepe, que estava agarrada às suas pernas, a virou de costas e apontou: “Aqui o curativo”, aí apertando a bunda dela pra mostrar que tinha curativo mesmo debaixo da calça, e completando: “Uma injeção mal dada”. Ele fez a baldeação comigo da linha verde à linha azul; no metrô anterior estava contando a um sujeito que passara um produto químico na cabeça que lhe dera câncer (?), “caiu cabelo, caiu sobrancelha, caiu tudo” (quanto ao rapaz, disse, não havia perigo de ficar careca: não tinha entradas). Também explicou que não era daqui, era do interior de Minas, me esqueço a cidade agora; estava deslocado, afirmou, estava “perdido como pinto na granja” (não sei bem se foi “granja” o termo, mas era quase isso, um lugar onde um pinto provavelmente não estaria tão perdido). Depois que viemos ao outro trem ele prosseguiu contrariando a etiqueta do tédio da urbe e interagindo com desconhecidos. Mas no caso daquela mulher sentada havia um motivo especial para isso. Ela lhe fizera “o primeiro gesto de carinho que teve em São Paulo”. Isto é, levantou para que os seus filhos (mais dois, além daquela, sendo que um é “gêmeo com ela”) sentassem, além de dar uma folha de lenço umedecido para que um deles limpasse a mão. “O primeiro gesto de carinho aqui em São Paulo, em dois meses. Parabéns”. Parece que vem para a capital com alguma frequência; traz os filhos à quimioterapia. “O prefeito daqui”, se exaltou, “cortou a ambulância que trazia a gente da nossa cidade pra cá. Muito caro”. Era a segunda vez que eu ouvia falar de João Doria — o anti-Lula, segundo manchete da “Isto É” — hoje; a primeira foi a notícia da sua mais recente performance, estava erguendo bandeiras em alguma avenida para inspirar civilidade. “O prefeito daqui cortou a ambulância, não só da gente como de catorze famílias”. O homem descreveu toda a complicação que têm de fazer para virem ao médico agora, não sou capaz de reproduzir. “Sabe quando essas crianças vão comer?”, disse, a menina agarrada à sua perna, jogando a cabeça para trás, brincante, ele mostra o outro com a cabeça: “Ele está comendo agora porque o moço deu uma bolacha. Eles só vão comer quando a gente chegar no Tietê pra voltar pra casa. Às três e meia da manhã!”. Vai levando a filha a uma cadeira enquanto eu desço na Sé. “Sabe quando essa criança tinha de ter tomado banho? Faz quatro horas!”.

Chupa a Bala Halls, Pega a Vassoura e Voa

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“Ela levantou a mão e falou ‘Eu sou Maria’? pra vocês saberem? Pra vocês darem nome pra um objeto?”, diz a menina de coque na cabeça ao menino de camisa de botão listrada lilás para dentro da calça. Vê-se que ela narrava uma pendenga entre evangélicos e católicos. O rapaz comenta concordando: “É que se aprende isso de pequeno e continuam com essas superstições”. Talvez ele não tenha dito bem com esses termos. Enfim. Depois desse argumento que não caberia menos a Ateia, ela conta como foi importunada por não comer carne: “Eu falei: tia, você respeita a minha religião e eu respeito a sua. Mas a senhora quer discutir? Vamos pegar a Bíblia e discutir com a Bíblia aberta”. A tia teria retrucado: ah, mas eu tenho tantas décadas de evangelismo. “Então vamos discutir com a Bíblia aberta? Já que a senhora leu a Bíblia tantas vezes, né?” Disse que foi lá e abriu em tal parte e estava escrito que Jesus mandou ninguém comer nada que tivesse sangue. “Sabe o que é o porco? O porco é um lixeiro. A senhora tá comendo um lixeiro. Mesma coisa o camarão. A pessoa tá comendo os dejetos de todo mundo na praia”. Segundo a moça de coque isso tudo foi um arraso, a tia ficou muito atordoada. Logo a conversa transita para uma discussão teológica intramuros evangélicos. Ela constrói outro personagem que opõe a si: “’Ah, mas vocês não acreditam no Espírito Santo’. Aí eu começo a rir. Falo: má é cada uma! Como eu não acredito no Espírito Santo? Só que é que nem eu falo: quem disse que Deus leva em consideração que você só tem o Espírito Santo se você sai pulando, chupa a bala Halls, pega a vassoura e voa? Quem garante isso? Você só tem algo se for assim, se você ficar gritando e pulando igual um doido, todo mundo com medo de você, sem saber o que é aquilo”. O rapaz nota que certo livro da Bíblia não diz que TODAS as pessoas estavam pulando em certa ocasião que, imagino, sustente essa interpretação negada pela menina. Ela acrescenta que em outro ou no mesmo livro bíblico, pelo que pude entender, fulano até gritava ou pulava, mas “falava de forma que tooodos entendiam. Então eram línguas locais. Era língua daqui da Terra, não era língua do beléleu. Não é um negócio de chupa a bala Halls, pega a vassoura e voa”. Os desentendimento com outras designações iam além do falar em línguas ou do receber o êxtase divino de formas performáticas demais. Outra questão é que haveria uns crentes muito peguentos. “Às vezes tem um pessoal amigo meu que diz: ‘Posso orar por você?’ Eu digo: ora, mas não põe a mão. Não põe a mão. Não põe. Pode orar, se quiser segurar na minha mão, beleza, mas por a mão na minha cabeça não”. O rapaz acrescenta: “Por a mão na cabeça só o meu cabelereiro ou o pastor”. Ela retruca, reeditando Augusto dos Anjos sem saber talvez, e com menos talento: “E olhe lá, viu! Que eu sou bem assustada. Eu sou meio assustada, porque sabe aquela história, né? A mão que te abençoa é a mesma que te amaldiçoa. Mão na tua cabeça, fio, é algo muuuito sério. É muito sério isso”. O rapaz se repete: “Eu sei. Por isso que eu só tenho essa concepção, ou meu pastor ou meu barbeiro. Só”. Ela continua novamente quase como senão tivesse sido interrompida: “O cara tem de passar meeega credibilidade pra você”. Ela volta ao que parece ser o cerne da sua ética: aferrar-se à leitura da Bíblia. “Com o tempo, se você for vendo a Bíblia, você vai começar a ver. Que nem, o pessoal fala pra mim assim: ‘Ah, mas você não bebe? Pode beber, Jesus Cristo fez vinho’. Mas fala o teor alcoólico?”. Ela pergunta retoricamente e responde de imediato e em um tom mais sério: “Não. A gente que inventou de tacar álcool dentro das coisas”. O rapaz sempre fático: “A fermentação já tem o álcool natureba, né. Hoje em dia com os esquemas de produção, escala…”. Eles apontaram problemas diferentes, na verdade: ela culpa uma má interpretação do que seria claríssimo no texto bíblico. Ele meio que culpa o capitalismo. A garota prossegue: “Eu bebo cerveja sem álcool. Porque eu tenho um problema renal e bebo sem álcool. Só que eu não posso fazer disso um vício, porque a gente deve fugir da Aparência do Mal. Que que adianta, o cara vai falar bem assim pra mim, tá com cheiro de cerveja de qualquer forma”. Seria deus ou Jesus esse “cara”? O exemplo que dá lembra a parábola das lanternas. Ainda ela: “Tudo a gente tem que fazer e tem que ter cuidado. Aquela história: eu faço todas as coisas, porém nem tudo me convém”. Então chegou a estação, e eles se foram.

Cristã Verdadeira

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“Só porque tem uns trocadinhos, pensa que é alguma coisa. Só porque tem umas moedas, pensa que é melhor que a gente. Mandando eu me lascar. Mas eu não me lasco não, que meu Deus me cuida.” A senhorinha vem manquejando na direção do ponto de ônibus, apoiando-se em uma bengala de quatro pontas, uma das pernas enfaixada. Usa uma camiseta amarela desbotada e saia até os tornozelos; carrega duas sacolas, pára sob o abrigo e se põe a procurar algo em uma delas. “Só porque tem uns trocadinhos no Bradesco pensa que é alguma coisa.” Puxa um resma de folhetos retangulares com citações da Bíblia. “Quer a palavra do Senhor?”, ela me diz, eu aceito por educação; ela passa ao próximo expectante, uma moça sentada no banco de madeira. “Quando o diabo manda dos seus é difícil, né? Ela mandou eu me lascar. Só porque tem uns trocadinhos, acha que é melhor que a gente.” Entrega o folheto e segue a um idoso também na fila. “Quer a palavra do Senhor?” Devagar, continua falando, “eu trabalhei 35 anos. Agora a perna inflamou”, purgando e pregando, “todo mundo é igual, a Dilma é igual, a Dilma teve na cadeia, teve na presidência.” Há nessa frase uma profunda compreensão ética: a igualdade é que nada está garantido e que todos somos frágeis. Cristã verdadeira.

Não Tem Nem o Que Dizer

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[Cortando o cabelo. Na TV, alguém comenta sobre a namorada atual do Belo. O cabelereiro me informa sobre o estado conjugal do cantor e depois expõe uma teoria] Toda montada, cheia de silicone. Vão pra academia e colocam silicone. [Pára o serviço, se afasta um passo e disserta com os braços abertos; vejo seu rosto compenetrado pelo espelho. Tem alguma tristeza nele] É que nem você comer uma fruta com agrotóxico e uma fruta normal: uma é pequena e tem sabor, a outra fica desse tamanho [Mostra a envergadura com as mãos] e não é boa. Muito diferente: você pegar uma mulher que é mulher mesmo e uma dessas. Vai dizer que é boa de cama, é nada. É a mesma coisa você comprar uma boneca, tem boceta, é quente. Vai dizer o que? Não tem nem o que dizer. [Adiciona então o seguinte argumento, talvez para que se pense que não fala por machismo] As mulheres falam a mesma coisa dos caras bombados. É, fica bombado, mas não conseguem fazer o sexo corretamente. [Retorna então à qualidade das mulheres por uma outra via] É a mesma coisa você pegar uma mulher de 22 anos e pegar uma de 37 anos. A de 22 é bom porque é tudo durinho, mas não aguenta foder nem vinte minutos. A de 37 você fode a noite inteira. Isso se o cara também. [Termina o corte, mostra como ficou atrás etc.]

Pra que agressão?

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O pessoal capturou um ladrão hoje na estação Santana. Eu tinha acabado de passar pela catraca do metrô, estava no corredor das várias escadas que levam ao terminal de ônibus e vieram correndo um ou dois gritos de “ladrão!”; cerca de cinco pessoas perseguiam um homem de uns 30 anos, branco, cabelo curto com gel, camisa de botão branca com linhas verticais pretas, calça e sapatos sociais. Conseguiram segurá-lo na plataforma, os curiosos ou olhavam de longe esticando o pescoço como suricates ou subiam às pressas para ver de perto. Dois homens o prendiam: um, as pernas; outro, no mata-leão. Uma mulher tentava pegar algo nas calças dele enquanto ele se debatia; ela ordenou, “chão!”, ao mesmo tempo em que os outros dois já faziam isso. Foi imobilizado contra o piso: aquele segundo homem pressionava seu pescoço, os olhos estavam estatelados, o rosto vermelho, afogado — achei significativo que as mãos escaparam do pescoço para a face, mas não ficaram nela, não a atacaram: é o sinal do mínimo de civilidade mesmo em um caso assim. Simultaneamente a mulher lhe dava dois chutes. Acharam a faca com que ele tinha assaltado um menino; me pareceu uma arma profissional, a lâmina dentada, de um prateado limpo, com algo menos que quinze centímetros; o rapaz roubado parecia gay pelo jeito de falar, o que levou o homem do mata-leão a apontar o que seria a covardia do seu prisioneiro: “Gosta de bater em viado, é?”. Mesmo rendido, o delinquente ameaçava, “vou apagar todos vocês”, porém lhe respondiam ainda bélicos mas também serenos, “fica na moral”. Chegou uma senhorinha atrasada, cabelo em coque: “Pra que agressão? Pra que agressão?”. Um cara de meia idade, a três metros de distância do conflito e em segurança, comentou: “Não tem de chamar a polícia não, tem de bater”. Liguei três vezes para o 190 e só fui atendido pela secretária eletrônica; contudo a PM chegou logo depois.

É o que acaba: a bebida!

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São cinco bancos, ela está na janela, eu na outra ponta, uma mulher no banco do meio, ela abre a bolsa e percebe que em vez do celular pegou o controle remoto. Seu modo de falar tem a sonoridade nordestina típica, sua pele é escura (não sei se por origem negra ou indígena). Ou sente vergonha ou acha engraçado, fica com um sorriso besta olhando em torno, eu reparo, não entendo o que ela fala ou se fala comigo, volto ao livro, ela começa a explicar para a que estava no meio. “Foi na carreira, na carreira. Agora como a menina vai fazer? Que ela dorme na sala, naquela cama que puxa. Ninguém vai acreditar: Mãe, você ficou doida?”. Disto passa a comentar que os filhos reclamam que ela não ficava muito em casa quando eram pequenos. “Eu estava trabalhando! Eu chegava às… não, eu chegava às quatro porque era o horário da creche. Perdi muito emprego bom porque tinha de sair cedo”. Fala-se alguma coisa sobre trabalhar como doméstica ou governanta, sobre períodos mais flexíveis, a outra mulher diz, “a patroa entende a gente, né?”. Nessa altura essa outra mulher se resigna ou se contenta e muda de banco, para ficar ao lado da primeira. “No domingo meus filhos não vão pra balada, essas coisas, porque eu nunca acostumei. Nunca botei cigarro dentro de casa, nunca botei bebida dentro de casa. Nenhum dos meus filhos nem bebe nem fuma, por isso toda noite eu rezo e choro: Obrigado, meu senhor, porque mesmo com a pobreza — eu sou pobre — nenhum dos meus filhos bebe ou fuma”. Conta depois, com alguma hesitação: “Eu fiquei… sem marido”. E por quê? “ Por causa da bebida. Da BE-BI-DA. Quando casou era bonzinho, depois veio colega, colega de bar, colega de bar, pronto. Eu sofri muito com ele, a família botou ele naqueles lugar, pra curar, não adiantou. É o que acaba, a bebida, o cigarro, essas coisas”.

Bem-te-vi que come carne

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“Aqui é bom, né?”, diz este senhor parecido com o cientista do De Volta para o Futuro, se referindo ao banco de praça ao lado do ponto de ônibus e em frente às árvores e o gramado extenso. “Caralho”, exclama, do nada. Senta meio de lado, olha a distância. “Você está aqui há muito tempo?” — “Dez minutos.” — Então não vai demorar muito”. Senta reto, observa. “Plantaram tanta árvore aqui, não plantaram uma pitangueira pros passarinho comer as frutas. Lá em casa tem uma, enche de passarinho. Sabiá, bem-te-vi. Até aquele preto e vermelho, como é o nome? Como é o nome? Tiê. Tem quarenta anos aquela árvore. Eu tô casado há [não escuto o número, então vamos supor: muitos] anos, ela já estava lá, então tem quarenta anos. Um dia vou arrancar uma dessas aí e plantar uma pitangueira. Foda-se. Eu sou policial aposentado, eu moro nessa rua”, joga o braço pra frente, apontando. Pára um instante. Ele usa camisa de campanha de solidariedade, tem a expressão raivosa. “Tinha um filho da puta de um velho aí, já morreu, a filha já vendeu a casa, ficava com as gaiolas, pegando passarinho, um tal de Rocha, tenente, não sei se você conheceu. Cara morrendo, filha da puta ficava armando a gaiola aí, pra prender passarinho. Um dia ele foi fazer não sei o que, pegou fogo no barraco dele, matou não sei quantos passarinhos. E ele era bombeiro hein? Trabalhava no corpo de bombeiros. Tá no bico do urubu, tá com 80 anos, fica caçando passarinho pra quê, caralho? Tenente Rocha. Deixa o passarinho na árvore! Aqui. Beleza. Cantando. Uma empregada minha picava pedacinho de carne, pedaço que sua mãe, sua esposa joga fora, botava em cima da mureta, vinha o passarinho, bem-te-vi, comer. Quando ela não punha, ficavam os dois em cima do telhado chamando ela: Bem-te-vi! Bem-te-vi! Bem-te-vi!”. Dá uma risada pontual. “Eles vinham. Pô, nunca vi bem-te-vi comer carne, caralho”. Faço um comentário pertinente qualquer. Ignora. “Eu vou… agora… tô arrumando minha casa, eu tenho uma área de 700, 800 metros, aqui nessa rua. Aí queriam comprar pra fazer prédio. Não querem pagar, caralho, eu vou ficar com dinheiro? Dinheiro… a pessoa só vende imóvel em caso de extrema doença ou então pra comprar um melhor. Agora eu resolvi ficar aí até morrer, já tenho quase 75 anos, em dezembro faço 50 anos de casado. Meu sogro é um dos fundadores aqui do bairro, veio em quarenta, minha mulher tem 71 anos, faz 70 que mora aí. Então eu já não vou mudar, tô dando uma ajeitadinha na casa. Tá uma imundície lá, eu tenho mais de 400 vasos de orquídea. Cada flor, rapaz. Eu tenho lá um monte de taça, medalha, tudo que eu ganhei nas exposições de orquídea por aí, do japonês. Parque do Estado lá, onde tem o zoológico encostado. Jardim Botânico. E exposição boa, viu, filho? Tem cara lá que concorre com cinco mil planta, ainda mais o japonês, japonês é especializado em planta. Eu tenho uma área boa lá no fundo, sabe? Mas não dá pra ter planta lá, porque tem que… fazer um monte de coisa… mas eu vou fazer. Caralho, como demora esse ônibus. Se soubesse tinha pegado o carro, cê vai pra Santana com o carro, não tem onde parar. Eu tenho quatro carro em casa lá, eu sou pobre, não sou rico não. É que eu tinha dois carro velho, trabalhava com bordado, pra entrar no Brás, um dia entrava com um, outro dia com outro, por causa da chapa, né. Tô vendendo um gol, não consigo vender. O carro tá… esfumaçando, não consigo passar na vistoria, eu não andei 4 mil quilômetro com o carro, o carro tá esfumaçando. O cara morreu, o mecânico, os dois mecânico morreu. O carro tá lá na casa do meu filho. Esse eu levei lá pra Arujá, entendeu, tá lá, só pra não passar na vistoria — mas se o PT ganhar pra governador, eles vão botar no Estado todo essa merda aí, aí fodeu-se”. Chega o ônibus. “Qual o nome do senhor?”; “Celso”. Cara de contrariado, subindo a escada. “Eu vou ficar aqui na frente mesmo, que eu não posso passar da roleta”; “Tá. Até”.

Por que você não é feliz?

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Falava sozinha, encostada à porta do metrô. Encarnava um personagem autoritário, antipático e prepotente, um psicólogo que “estudou muito antes de abrir a boquinha”, que tagarelava sobre eficiência, “missão”, “honraria”, “servir à nação”. O psicólogo disse: “A minha aula foi ruim? Ou foi perfeita?”. O psicólogo disse: “A minha aula foi errada ou foi certíssima?”. O psicólogo se opunha a uma mulher menor, “suja”, que “não pensa no que diz”. A mulher menor escrevera poesia dizendo que era infeliz. “Por que você não é feliz?”, gritara o médico. A louca desceu na Vergueiro. “Por que você não é feliz!”.

Juraci, e o seu?

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“O que é esse livro aí, antropologia, psicologia?”, diz o senhor que senta ao meu lado no ônibus; eu respondo: “Filosofia”. Ele: “Ah! Filosofia. Eu tenho mais de cem livros de filosofia. Sabe qual foi o maior filósofo? Não foi Sócrates, nem Platão, nem Aristóteles, nem Diógenes” — e me mostra uma edição de “Ecce Homo”, do Nietzsche — “Esse é o maior filósofo. Né? Porque com esse não tem véu nenhum”. E tira algo da bolsa, “esse livro aqui, ele custa oitenta reais, mas eu achei na Sé, em um sebo, por dois reais” — trata-se de “O Instinto Geométrico”, de Horst Ochmann, aparentemente uma dissertação em torno de Kepler, com umas seiscentas páginas. “Sabe quem é o Kepler?” — o livro aparentemente propõe uma geometria presente não só no universo como em todos os aspectos da vida, uma cosmologia em sentido próprio, portanto — “Esse livro explica porque as mulheres têm nove meses de gestação, é porque são nove planetas” (não confio que de fato o livro o diga); “Esse livro aqui, se você quer saber de filosofia, psicologia, ele tem”. Então ele retorna à bolsa, retira de lá uma caderneta preta, repleta de anotações (uma ideia por folha), se atrapalha com os papeis. “Você me desculpa que eu sou atrapalhado, é que eu tenho PVC” — “PVC?” — “Porra de velhice do caralho! E, além do mais, tenho SPA: Síndrome do Pensamento Acelerado!”. Ele fala de Freud; ele fala de Lacan (“Muito mais trabalhado que o Freud”), me mostra uma anotação sobre Maud Manony, psicóloga autora de “O Saber do Não-Saber” (não encontrei no Google…). “Eu tenho mais de 1200 livros. Você pode passar na minha casa que eu te empresto algum, eu não ligo pra isso não, eu moro atrás do Precito (supermercado daqui), logo atrás do Itaú, na rua tal, número tal, pega meu celular (mas senhor, você é muito confiado, eu posso ser um assassinoestupradorladrãopsicótico, ô meu deus!)”. Ele está vendendo a casa dele, até pensou em fazer um sebo, mas não rolou, algum problema com o trabalho, ele vende próteses, e, você sabe, “tudo que começa com P não presta: prótese, puta, padre e polícia”. Prossegue a doutrina: “Deus (ou ele disse universo?) é macro e nós somos micro, o corpo é submetido à mente, mas a mente é submetida à alma, nós somos dualistas”. Chega o ponto. “Qual o nome do senhor?”; “Juraci! E o seu?”; “Prazer em conhecer”. Fico contente que ele está sorrindo. Ele diz: “A gente se vê por ai”.